Parceria
Cultural:
Mutar

ACESSO FÁCIL

Rosildo Barcellos: Brincando com as palavras

Entre os diversos assuntos refletidos na obra de Manoel, a peça percorre a memória da infância. “Ele fala de uma infância arquetípica, do essencial que surge no vazio. E a infância é esse lugar do símbolo e da metáfora da invenção. Plantamos a peça nesse lugar da criação, no qual se tem liberdade pra fazer ‘peraltagens’ com as palavras. Mas, entre adultos, as brincadeiras viram verdadeiras subversões. “Quando Manoel fala do ‘exercício de ser criança’, é que algo perdido precisa ser praticado como esse lugar do vazio,onde as crianças andam de chinelo, aonde ecas se sentem no abandono, onde não tem nada. Mas por não ter nada, tem tudo, tem a capacidade da criação. É como se ele nos perguntasse quais são os valores que queremos seguir.

  Ele faz com que nos perguntemos se estamos mantendo alerta nossa capacidade de invenção”, No espaço aberto da interpretação, a aparente simplicidade da poesia de Manoel abraça, com humor e graça, temas urgentes da sociedade contemporânea. “Quando ele diz que o que não serve para o lixo serve para a poesia, ele dá um tapa com luva de pelica na sociedade de consumo. Você precisa de beleza, riqueza ou de espaço para a condição de criação, ou ainda de alguém que se preocupa contigo? Ele quer desacostumar o olhar, e isso começa na forma como se comunica com o próximo. Manoel Wenceslau Leite de Barros (1916 – 2014): Poeta nascido no Mato Grosso está ligado ao pós-modernismo brasileiro. Seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado (1937), foi produzido por um grupo de amigos e publicado com uma tiragem de apenas 21 exemplares Sua mais famosa publicação é Livro sobre Nada (1996). Márcio de Camillo por sua vez é apresentador de televisão, cantor, compositor e instrumentista, criado no Mato Grosso do Sul, cenário que compôs a base inicial do seu estilo musical. Depois de viver um ano nos EUA, mudou-se para São Paulo em 1988, onde passou a trabalhar com diversos artistas da música brasileira, como Renato Teixeira e Zé Geraldo. Com o primeiro gravou lembranças matogrossenses  Em 1996, Márcio lançou seu primeiro CD, intitulado “Olhos d’água”, no qual apresentou uma fusão nova de ritmos tipicamente brasileiros (baião, maracatu, arrasta-pé) e os ritmos de fronteira (chamamé e a guarânea).

Márcio inspirado pelo desejo de ensinar poesia à filha de uma maneira diferente, e assim o músico sul mato-grossense, Márcio de Camillo, idealizou o Projeto Crianceiras, onde através de várias outras linguagens artísticas como o teatro, a música, a dança e recursos audiovisuais incríveis, aproxima as crianças do universo poético de Manoel de Barros. Os personagens formam o fio-condutor da seleção feita pelo músico dentro da obra de Barros.Sobre o assunto ele dizia: “Eu busquei os personagens e histórias dentro dos poemas.

  Por exemplo, ‘O Menino e o Rio’ é uma canção, um poema entoado, que fala do próprio Manoel de Barros”, explica. “Além disso, estava sempre atento às mensagens das poesias, procurando as que mais podiam ser melhor compreendidas pelas crianças” Aliás falando em crianças, aproveito para dizer que: Quando você, mãe,  estiver super cansada, louca por um banho e por um café quente, e repentinamente passos rápidos vierem na tua direção lhe mostrando os desenhos novos da escola, pare e olhe bem aquele rostinho feliz… Ninguém nunca vai querer dividir conquistas com você daquele jeito.

 Quando você estiver no meio do último capítulo da novela “Pantanal”  e escutar o choro gritando por teu nome com o joelho ralado, e você quiser brigar porque lhe estão pedindo colo, pense que ninguém nunca, naquela cidade inteira vai pedir o seu colo para se sentir protegido daquela maneira.. E é justamente essa essência que Márcio de Camillo captou na obra de Manoel de Barros e trouxe para a música.

Rosildo Barcelos*

COMPARTILHE AGORA MESMO