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Vori-vori: prato paraguaio que superou a picanha em ranking internacional é tradição de família brasileira

Por Débora Ricalde, g1 MS — Mato Grosso do Sul

Vori-vori: família de brasiguaios mantém tradição paraguaia viva em Campo Grande MS

Vori-vori: família de brasiguaios mantém tradição paraguaia viva em Campo Grande MS

Na cozinha de casa, em Campo Grande, Maria Helena Lopes, de 86 anos, mantém há décadas o preparo do Vori-vori, receita que aprendeu ainda na infância e que atravessou a fronteira com a história da própria família. O prato, tradicional do Paraguai, vai além da alimentação: representa identidade, memória e a presença da imigração paraguaia em Mato Grosso do Sul, legado que hoje ganha projeção internacional ao liderar o ranking do TasteAtlas. Veja o vídeo acima.

A família, formada por brasiguaios (paraguaios e brasileiros), cresceu na região de Bela Vista, município de Mato Grosso do Sul que faz divisa com Bella Vista Norte, no Paraguai. Para eles, o prato vai além de um caldo com bolinhas de milho: representa uma forma de preservar identidade, memória e união.

Preparado com técnica e poucos ingredientes, o prato exige equilíbrio entre o caldo de frango e as bolinhas de milho com queijo, consideradas a base da identidade da receita.

Além do valor cultural, o vori-vori também marca a história da comunidade paraguaia em Mato Grosso do Sul e contribuiu para a formação da Colônia Paraguaia em Campo Grande. O recente reconhecimento internacional reforça a importância do prato típico, consumido no dia a dia no país vizinho. Mais do que alimento, o vori-vori faz parte da identidade cultural do Paraguai e se torna uma memória afetiva para paraguaios e descendentes que vivem no estado, como a família Lopes.

🔍O ranking do TasteAtlas lista os 100 melhores pratos do mundo e faz parte de uma enciclopédia gastronômica dos Estados Unidos, sendo baseado em avaliações de usuários da plataforma, que atribuem notas às receitas de diferentes países, como a picanha brasileira, que ficou em 15º lugar na edição 2025/2026.

Infográfico - local e história do prato Vori-Vori. — Foto: g1-MS/Débora Ricalde

Infográfico – local e história do prato Vori-Vori. — Foto: g1-MS/Débora Ricalde

História marcada por trabalho e convivência familiar

A receita representa apenas parte do que o Vori-vori significa para a família Lopes. Maria Helena é uma entre 18 irmãos, sendo nove homens e nove mulheres. Três nasceram no Paraguai e os demais nasceram antes da criação de Mato Grosso do Sul, estado criado há 48 anos, em 11 de outubro de 1977.

Ela nasceu em Bonito, mas foi criada em Bela Vista, onde a família vivia em uma chácara às margens do rio Apa. “Lá a gente tinha de tudo. Todo mundo trabalhava, todo mundo plantava, todo mundo colhia. Todo mundo foi criado assim”, recorda.

Segundo ela, o pai não tinha relógio e o tempo do preparo era contado pela sombra do sol na casa. A mãe produzia linguiça e queijo, enquanto o pai fazia melado. O avô ajudava no cuidado da horta.

“De tudo o que pensar, na nossa casa tinha. Porque dava para sustentar todo mundo”, lembra.

Prato Vori-vori, feito por Maria Helena, em Campo Grande (MS). — Foto: Alison Lima/TV Morena

Prato Vori-vori, feito por Maria Helena, em Campo Grande (MS). — Foto: Alison Lima/TV Morena

Prato ajudou a fundar a Colônia Paraguaia

Com o tempo, o Vori-vori passou a ter também ligação com a história da comunidade paraguaia em Mato Grosso do Sul. Maria Helena conta que o marido esteve entre os primeiros envolvidos na criação da Colônia Paraguaia no ano de 1973, em Campo Grande.

Segundo o Censo de 2022, Mato Grosso do Sul está entre os estados com maior número de residentes paraguaios no Brasil. O levantamento considera paraguaios que moravam no Paraguai até 2017 e imigraram para o estado. Ao todo, são 3.065 paraguaios, número que coloca Mato Grosso do Sul atrás apenas de São Paulo e Paraná.

Para arrecadar dinheiro, ela passou a cozinhar e vender pratos típicos, como chipa, sopa paraguaia e Vori-vori.

“Eu fazia chipa, sopa, Vori-vori para vender e arrecadar dinheiro. Íamos para a exposição com paneladas de Vori e Locro para conseguir arrecadar dinheiro e fazer a colônia”, conta.

Ela afirma que foram cerca de cinco anos de mobilização até que o projeto da construção da Colônia Paraguaia fosse concluído. “Batalhamos uns cinco anos direto para poder arrecadar dinheiro e levantar a colônia. Colocamos em pé. O primeiro barracão foi nós que fizemos”, relembra.

🔍 A Associação Colônia Paraguaia de Campo Grande é uma entidade sem fins lucrativos que preserva e fomenta a cultura paraguaia (música, dança, gastronomia) para mais de 80 mil imigrantes e descendentes. A associação procura valorizar a língua guarani e fortalecer os costumes tradicionais.

Thais Libni e Maria Helena provando Vori-vori em Campo Grande — Foto: Débora Ricalde/TV Morena

Thais Libni e Maria Helena provando Vori-vori em Campo Grande — Foto: Débora Ricalde/TV Morena

Receita atravessa gerações na família Lopes

Na casa da família Lopes, o preparo começa pelo tempero do frango. Maria Helena conta que, nesta versão, foi utilizado um pacote de filezinho de frango, temperado com antecedência. “O melhor é temperar de um dia para o outro”, ensina.

Na mistura, entram sal, vinagre e alho. No dia seguinte, ela doura o frango na panela e, na mesma gordura, refoga os temperos. Nesta preparação, foram usados cebola, pimentão e orégano. Em seguida, o frango vai para a panela de pressão com água, onde ferve por cerca de 10 minutos.

Enquanto isso, Maria Helena prepara as bolinhas, feitas com farinha de milho hidratada e queijo ralado. Para um pacote de farinha, ela utiliza cerca de uma xícara de queijo curado, que ajuda a dar liga e sabor.

 

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