Lista inclui delegado da Polícia Civil, preso desde setembro, e integrantes de núcleo familiar apontado pela PF como liderança da organização criminosa.
Por Adriano Fernandes, José Câmara, g1 MS — Mato Grosso do Sul
A Operação Ifrit, deflagrada pela Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (4), colocou 29 pessoas na mira de uma investigação sobre um esquema milionário de tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro e desvio de cocaína apreendida pela polícia.
Foram 25 mandados de prisão preventiva e uma prisão temporária, além de 3 medidas de monitoramento eletrônico. Entre os principais alvos da investigação estão integrantes da família Haidar, que atua na região de fronteira entre Mato Grosso do Sul e Paraguai.
Confira quem são os 29 alvos da Operação Ifrit:
- Adel Hassan Haidar
- Adule Vasques Haidar
- Andrey Elesbão Silva
- Bassam Hassan Haidar Ahmed
- Brendo Benega Pereira
- Bruno Banega
- Bruno Leonardo Bergamasco
- Daniel Ecleverson da Silva Barbosa
- Daniel Jonatas Ferreira
- Douglas Tobias
- Eduardo Greco
- Fahd Haidar
- Hector Salinas Esquivel
- Hoffman D’ávila Candido e Sousa
- Ireneo Ramom Acosta
- João Fernando Andrade de Carvalho
- Jorge Adalid Granier Ruiz
- José Miguel Vela Caprioli Junior
- Mamede Alhaj Haidar
- Maroan Fernandes Haidar Ahmed
- Nasser Haidar
- Pedro Henrique Flores Camargo
- Rafael Rodas Neto
- Renan Braiana Garcia Presotto
- Salazar José Batista
- Valdeson Pereira dos Santos
- Valter Ulisses Martins Silva
- Victor Hugo Santos Queiroz
- Vitor da Silva
Alvo da operação foi condenado por homicídio
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2019/y/8/FKrVcKRDuMG5AiIQ56AQ/maroan-fernandes-haidar-ahmed.jpg)
Maroan Fernandes Haidar Ahmed — Foto: Divulgação
Em janeiro de 2025, Maroan Fernandes Haidar Ahmed, um dos alvos da operação desta quarta-feira, foi condenado pela Justiça de Mato Grosso a 21 anos e seis meses de prisão pelo assassinato de Fábio Batista de Jesus.
O crime ocorreu em 3 de dezembro de 2018, em um posto de combustíveis e em 2019, quando ainda estava foragido, ele chegou a integrar a lista de mais procurados procurados da Interpol.
Na ocasião do julgamento, contudo, Maroan já estava detido na Penitenciária Federal de Porto Velho, em Rondônia.
Delegado é suspeito de desviar duas toneladas de cocaína
Preso desde setembro, no âmbito da Operação Infiltrados, o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa teria faturado ao menos R$ 15 milhões com a participação no esquema criminoso.
Segundo a PF, ele é suspeito de participar do desvio de aproximadamente duas toneladas de cocaína da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), em Campo Grande.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/H/N/wTw8DtR2iSHvhQ8qdjcw/hnjhbm-kj..png)
Ação da PF contra grupo ligado ao PCC e ao PGC atinge patrimônio superior a R$ 500 milhões — Foto: Polícia Federal
Em nota, a defesa de Hoffman informou que aguarda acesso aos autos do processo. Confira o posicionamento completo ao final da reportagem.
Já a defesa do policial civil Douglas Tobias, também preso em setembro, informou que acompanhou o cumprimento do mandado de busca e apreensão, mas ainda não teve acesso à decisão judicial nem ao conteúdo do inquérito.
Em nota, o advogado Luiz Renê afirmou que Douglas está à disposição para prestar esclarecimentos.
“De todo modo, Douglas Tobias mais uma vez demonstrou se tratar de pessoa idônea, profissional exemplar e nada tem a esconder, estando à disposição para prestar esclarecimentos e esperando que se faça justiça”, declarou.
O g1 ainda não conseguiu contato com as defesas dos demais investigados. O espaço segue aberto.
O g1 também tentou contato com a Polícia Civil e a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul (Sejusp), mas não obteve retorno.
Núcleo familiar atuava na fronteira
Segundo as investigações da Polícia Federal, a principal área de atuação da organização criminosa era a região de fronteira entre Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
O grupo também mantinha atividades em outros estados e rotas internacionais de tráfico. As drogas eram obtidas na Bolívia, no Peru e no Paraguai e enviadas para diferentes cidades brasileiras e países da Europa, principalmente Espanha e Portugal. O grupo teria ligação com o PCC e ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC).
A operação cumpriu mandados em sete estados: Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia.
As investigações apontam ainda que a organização utilizava armamento pesado e violência para controlar territórios. Entre os crimes atribuídos ao grupo estão sequestros, torturas, atentados e homicídios.
Ao todo, a operação cumpriu:
- 25 mandados de prisão preventiva;
- 1 mandado de prisão temporária;
- 3 medidas de monitoramento eletrônico;
- afastamento de três policiais civis de Mato Grosso do Sul;
- 76 mandados de busca e apreensão.
Cocaína de baixa pureza era usada para substituir droga apreendida
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/i/1/5zzueAQCuaGPMFojBg1w/cokcpklcklc-l.png)
Delegado de MS, Hoffman D’Ávila, é suspeito de usar a própria polícia para desviar 2 toneladas de cocaína — Foto: Reprodução/ PF
Para evitar que os desvios fossem descobertos, o grupo teria desenvolvido um método para substituir a cocaína retirada por outra de qualidade muito inferior. A droga original, com alto grau de pureza, era trocada por uma mistura adulterada, com cerca de 10% ou menos de cocaína, segundo a PF.
Conforme a Polícia Federal, o delegado Hoffman teria facilitado a entrada de integrantes da organização criminosa na Denar e no depósito onde ficavam armazenadas drogas apreendidas por forças de segurança, como Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal.
A investigação aponta que, em diferentes ocasiões, a cocaína de maior qualidade era retirada do estoque e comercializada pelo grupo. Para que a diferença não fosse percebida, os criminosos colocavam no lugar uma versão adulterada.
Segundo a PF, a mistura continha substâncias como amido de milho, aglutinantes e fermento. O grupo também teria reproduzido a identificação visual das embalagens originais e realizado testes para que a droga substituta apresentasse reação semelhante à cocaína em exames preliminares.
Com isso, a cocaína adulterada era colocada no lugar do entorpecente apreendido. Depois, o material substituído era encaminhado para destruição, conforme a investigação, pelo próprio delegado.
A PF afirma ter encontrado conversas, vídeos e imagens que mostram integrantes da organização manipulando a droga e entrando nas dependências da Denar.
A estratégia teria explorado uma falha no controle do estoque: segundo os investigadores, não havia fiscalização rigorosa sobre o grau de pureza da cocaína armazenada. A identificação feita pelos órgãos responsáveis verificava a presença da substância, mas não permitia acompanhar com precisão sua concentração.
Delegado teria acumulado mansão, fazenda e milhões de reais
A investigação estima que Hoffman tenha vendido cada quilo da cocaína desviada por valores entre R$ 8,5 mil e R$ 10,5 mil. Ao longo de aproximadamente dois anos, o valor obtido teria chegado a pelo menos R$ 15 milhões.
Além do dinheiro, a PF aponta que o delegado acumulou patrimônio incompatível com a origem dos recursos investigados, incluindo:
- Uma mansão de alto padrão no condomínio Alphaville, em Campo Grande;
- Um sítio em Pirenópolis, em Goiás;
- Inúmeros veículos;
- Pelo menos R$ 15 milhões obtidos, segundo a investigação, com a venda da cocaína desviada.
A investigação também identificou movimentação financeira superior a R$ 500 milhões em dois anos por meio da organização criminosa. Esse valor, porém, corresponde ao movimento financeiro atribuído ao grupo todo, e não exclusivamente ao delegado.
Policiais facilitavam acesso à droga e repassavam informações
A PF identificou a participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e de um policial rodoviário federal de Mato Grosso. Segundo a investigação, os servidores recebiam dinheiro ou bens em troca de informações sigilosas sobre rivais da organização.
Os agentes também são suspeitos de ajudar o grupo a ter acesso a drogas apreendidas e armazenadas em unidades policiais. As informações repassadas de dentro das corporações eram usadas para acompanhar movimentos de pessoas, veículos e locais de interesse dos criminosos.
O que diz a defesa do delegado na íntegra.
“A Defesa Técnica do Delegado de Polícia Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa informa que tomou conhecimento do cumprimento de novo mandado de prisão preventiva e de medidas de busca e apreensão no âmbito da denominada Operação Ifrit. Até o presente momento, a Defesa ainda não teve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova custódia nem aos elementos probatórios que embasaram as medidas. Diante disso, qualquer manifestação sobre o mérito seria prematura. Assim que houver acesso completo ao procedimento, a Defesa realizará a análise técnica do caso e adotará todas as medidas processuais cabíveis, assegurando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa.”



