A guerra d’água

A guerra d’água

Marcelino Nunes de Oliveira*

Um dos carnavais mais diferentes do País não poderia ser em outro lugar, a não ser na fronteira mais alegre e hospitaleira quando se trata de alguma festa do Mato Grosso do Sul: Ponta Porã. A guerra d’água teve início no século passado, provavelmente em Concepción, cidade paraguaia que tem um clima muito quente por ser uma região portuária, às margens do rio Paraguai. Nas suas festividades carnavalescas, os foliões amanheciam nos clubes dançando as marchinhas brasileiras, como “Mamãe Eu Quero” com o sotaque puxado do guarani, que ficava assim: “ma mandioquero”. A folia varava as noites e um dia um grupo teve a brilhante idéia de acordar os foliões beberrões jogando água um nos outros, para curar a ressaca. Aquilo foi se espalhando por toda cidade até chegar à fronteira brasileira e contagiar a todos. No início a brincadeira era praticada eram todos os dias de carnaval em Ponta Porã, mas com o passar do tempo foi regulamentada através de uma lei municipal de minha autoria, que limitou apenas o centro de Ponta Porã para a “guerra”, no domingo e na terça feira de carnaval. Os foliões da nossa cidade continuam até hoje a tradicional “Guerra D’água”, brincadeira que reúne mais de 10 mil pessoas, concentrada principalmente na Avenida Brasil, onde a Polícia Militar tem garantido a segurança dos foliões fiscalizando a brincadeira nos dia das “guerras”. Os grupos vão se formando nos dias que antecedem o carnaval. Alguns caminhões são enfeitados e faixas são colocadas para servir de slogan de cada grupo, balões são comprados e enchidos com água e normalmente cada grupo chega a comprar mais de 20 mil desses balões, formando os pelotões. No domingo, a partir das 13 horas, eles vão se posicionando na avenida. Normalmente alguns mantêm sua base fixa e outros preferem formar os grupos rotativos que ficam girando e se movimentando na área demarcada. Alguns apetrechos como capacetes com viseiras, luvas e casacos são utilizados para amortecer o impacto dos balões atirados pelos “pelotões de fuzilamento”. A “batalha” tem inicio quando o grupo volante passa de carro ou caminhão arremessando contra os que estão fixos em determinado local. Existe também o respeito em relação ao local. Quem chega primeiro é o dono do pedaço. É lógico que também existe “guerra” pelo melhor local. Quando há uma demora em passar os caminhões “tanques” a disputa é terrestre entre as “infantarias”. Brasileiros e paraguaios participam dessa guerra, mas o mais interessante é o espírito integrativo, pois ao final todos “sobrevivem”. Há vários anos a guerra ocorre em área demarcada, três quarteirões da Avenida Brasil, principal Rua de Ponta Porã. Antigamente havia reclamação dos moradores da cidade que não participavam da folia, mas acabavam molhados de surpresa. No período de carnaval os comerciantes da área central protegem as vitrines para evitar vidros quebrados e outros prejuízos. Os primeiros carros alegóricos utilizados na “guerra d’água” foram o “Bateau Mouche” do gaúcho Eidt e o “Comando Dornelles”. Também haviam blocos, como o das “Virgens da Vila Áurea”, que era comandado pelos especialistas Tonhão, Tinho, Reinaldo, Alexandre e Russão ou o do “Baixinho”, que quando entra na Avenida Brasil anuncia o “fim da guerra” e começo do samba. A euforia só termina na quarta-feira de cinzas. O que passou, passou e começa a contagem para o próximo carnaval.

* Bacharel em Direito,Mestrando em direito internacional, pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior e Especialista em segurança e estudioso da cultura fronteiriça.
E-mail: marcelinonunes@ibest.com.br

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