Marcelo Miranda acredita que o investimento no esporte escolar e de alto rendimento ao mesmo tempo poderá fazer com que muitos sul-mato-grossenses brilhem
EDUARDO MIRANDA
O professor de Educação Física, ex-atleta, técnico e gestor da área do Esporte Marcelo Ferreira Miranda passou mais de sete anos à frente da Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte).
Antes crítico das ações de fomento ao esporte do Estado, Marcelo Miranda deixou a missão convicto de que, quando aplicado corretamente, o fomento às atividades esportivas pode transformar o destino de muitas pessoas, além de ter um papel social importante na formação da população, sobretudo, a de baixa renda.
Sob sua gestão, programas como o Bolsa Atleta foram fortalecidos e atletas de Mato Grosso do Sul tiveram destaque em competições nacionais e internacionais, como os paratletas Yeltsin Jacques e Fernando Rufino, ouro na Paralimpíada de Tóquio. “O Bolsa Atleta nosso é um dos melhores do Brasil. A meu ver, ele é melhor, inclusive, que o Bolsa Atleta nacional”, crava.
Em entrevista ao Corrreio do Estado, Miranda faz um balanço de sua gestão, das novas promessas do esporte do Estado e da relação entre clubes e a iniciativa privada.
Marcelo Ferreira Miranda -PERFIL
Graduado em Educação Física pela UFMS, pós-graduado pela PUC-MG, mestre em Motricidade Humana pela Unicamp, diretor da Fundesporte de 2015 a 2022 e técnico vice-campeão brasileiro de handebol.
Como foi o desafio de gerir o fomento público ao Esporte em Mato Grosso do Sul?
Foi um desafio muito grande. O esporte tem diversas necessidades em várias dimensões e em vários segmentos.
É muito complexo quando se vai fazer uma análise de política pública do esporte, porque ele envolve o alto rendimento, os programas de iniciação esportiva, entre outras áreas. Quando se vai analisar as modalidades, temos desde esportes equestres até os mais tradicionais, sem falar da paixão pelo futebol.
E o interessante, desde que assumimos em 2015, é que eu era um crítico da gestão do Esporte. Até pela minha posição de professor universitário – fui atleta e técnico –, por isso, fazia muitas críticas à gestão.
De repente me vi responsável pela gestão. E o que nós encontramos foi um panorama muito ruim. Uma centralização dos recursos.
Não se via ações do Estado de forma concreta: praticamente nada. A não ser o futebol profissional, que já tinha aquele convênio que vem desde a época do governo Zeca.
Quais foram os primeiros passos?
A primeira coisa que fizemos em 2015 foi o Fórum Estadual de Esportes e Lazer. Colocamos todo mundo para discutir as demandas do esporte. A gente separou por segmentos.
Analisamos e debatemos o futebol profissional, esporte de rendimento, esporte escolar, esporte universitário, esporte comunitário, esporte paralímpico, e ali a gente levantou, de forma muito democrática, muito bem ampla, as demandas de todos os setores do Esporte. E criamos um plano de ação plurianual.
Fizemos isso tudo seguindo orientação do secretário Eduardo Riedel, que já era o secretário de Governo e Gestão Estratégica na época, e do governador Reinaldo Azambuja. E aí, eu tenho orgulho de dizer que, no fim desses sete anos e meio, a gente cumpriu praticamente a totalidade do que foi proposto no plano plurianual. Reestruturamos os Jogos Escolares, Jogos Universitários.
O futebol profissional é um capítulo à parte. Fizemos um edital para o resgate dos clubes. Reestruturamos o Bolsa Atleta, a Bolsa Técnico. Atendemos modalidades de alto rendimento e até mesmo clubes do laço, rodeios, cavalgadas. Conseguimos implantar uma política bastante ampla. Atendendo o esporte em todos os setores.
E o futebol profissional?
A única área que a gente não teve resultados expressivos foi no futebol profissional. E aí a gente tem uma complexidade, são várias questões que interferem. Os nossos clubes vêm de um histórico de gestão muito complicado.
Eu treinei futebol, fui atleta do Operário nas categorias de base, o Operário tinha um centro administrativo na Avenida Bandeirantes. Além de um centro administrativo, era um hotel para a gente fazer concentração.
E também tinha um centro de treinamento na saída para Terenos que tinha dois campos de futebol, era uma estrutura muito grande. Com o passar dos anos, os clubes foram perdendo esse patrimônio, perdendo essa estrutura.
Hoje temos aí presidente de clubes que são guerreiros, pegam o clube sem condição nenhuma, sem infraestrutura nenhuma, e ainda conseguem montar uma equipe com muita dificuldade.
Esse problema de estrutura dos clubes não é exclusivo de Mato Grosso do Sul. Se a gente for pegar a maioria dos estados, o futebol passa por essa dificuldade. A gente vê muito os clubes da Série A e da Série B.
E o Morenão? Todo ano o estádio precisa de uma reforma…
O estádio já está sendo reformado. O governo do Estado liberou R$ 9,2 milhões para a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul [UFMS]. As obras já estão acontecendo, já começaram com as reformas dos vestiários.
É uma reforma que vai dar conforto, acessibilidade e segurança, podendo liberar 100% do Morenão. Atualmente ,estamos com a liberação de metade do estádio, que conseguimos em 2017, com recursos do governo do Estado.
É um valor significativo para que haja uma revitalização total. E as obras já estão acontecendo, com previsão de entregar até o fim do ano. Arquibancada, vestiários dos atletas, dos árbitros, do público. Segurança, obras de acessibilidade, fechamento do fosso. Está prevista para ser entregue no fim do ano.
No financiamento do esporte, por que há pouca participação da iniciativa privada? Ainda se espera muito do poder público por aqui?
Eu acho que o governo do Estado fez a parte dele. Pegando o exemplo do resgate do voleibol e do futsal. Soltamos um edital para clubes que quisessem montar equipes competitivas para as ligas nacionais de handebol, vôlei, basquete e futsal.
Foram aprovados dois projetos: do voleibol, R$ 500 mil; e do futsal, R$ 500 mil. O voleibol disputou a Série C, e foi um projeto que, por falta de apoio da iniciativa privada, acabou não sendo o projeto proposto para nós. Seria mais R$ 500 mil da iniciativa privada, aporte que não aconteceu. Acabou que a equipe não classificou para a Série B.
Neste ano, nós vamos soltar de novo esse edital e não sabemos se eles vão concorrer de novo.
No futsal, a equipe da Serc captou esse recurso e foi um projeto muito exitoso. A Serc ficou em segundo lugar na Taça Brasil de Futsal, ganhando de equipes supertradicionais. E foi legal porque foi a Série A do futsal feminino do Brasil.
As melhores equipes estiveram aqui. Foi em Campo Grande, no Guanandizão, e foi um sucesso. A Serc, especificamente, ainda consegue uns patrocinadores locais, sobretudo lá em Chapadão.
Acha que ainda há empresário que desconfia dos gestores dos clubes?
Eu acho, isso ainda ocorre. Então, nós fizemos um seminário em janeiro de 2020, trouxemos o pessoal do marketing da CBF, até para apresentar os números do futebol. Trouxemos o presidente do Cuiabá, que falou qual foi a estratégia do Cuiabá para a fundação de recurso.
E também a Federação Mato-Grossense, porque hoje os caras têm um time na Série A e outro na Série C. Nós só temos um na Série D.
Uma coisa interessante é que o Cuiabá começou com recursos próprios dos empresários e hoje ele tem visibilidade em função do patrocínio que o clube atingiu. Eu imagino que a gente precisa dar esse start, romper essa barreira, porque naturalmente começam a aparecer as oportunidades.
Se você pegar o Operário, ele tem um valor agregado muito grande. Tenho certeza de que o Operário vai disputar a Série D no ano que vem, e já estão garantidos os mesmos R$ 500 mil que destinamos ao Costa Rica neste ano. A ideia é colocarmos eles na mesma mesa, clubes e empresários, para que eles possam se acertar.
Os clubes têm de andar com as próprias pernas e captar recursos da iniciativa privada. Até porque o nosso foco é outro, é fortalecer categorias de base, democratizar o acesso à prática esportiva e a programas esportivos, principalmente em regiões de maior vulnerabilidade social.
E nos outros esportes?
A gente conseguiu provar uma teoria que é muito discutida na Educação Física, a de que o esporte de rendimento não tem conflito com o esporte de base. No desporto escolar, criamos um programa hoje que é referência no Brasil, chama-se Prodesc.
São quase 1,3 mil projetos esportivos do Estado. Em 75 cidades há projetos do governo em 24 modalidades esportivas. E o projeto tem como finalidade democratizar o acesso à prática esportiva, sem pensar inicialmente em alto rendimento.
Temos, por exemplo, projetos nas áreas indígenas, quilombolas, Uneis [Unidades Educacionais de Internação]. É uma forma de encaminhar a garotada. Esse mesmo programa rendeu vários atletas que são campões brasileiros, campões sul-americanos, a partir do desporto escolar. Hoje, temos 350 bolsistas.
E foi por meio desses resultados que eles conseguiram em campeonatos brasileiros, sul-americanos e mundiais, eles recebem uma ajuda mensal do governo do Estado.
O Bolsa Atleta entra nessa transição?
Sim. Aí que ele entra, e ele contempla tanto os atletas como os técnicos. Essa ajuda vai de R$ 500 a R$ 7 mil. Por exemplo, grandes campões, como o [Fernando] Rufino, ganham a bolsa de R$ 7 mil, e o técnico dele também tem uma ajuda, que é de R$ 5 mil. E também temos a bolsa de um valor menor.
Hoje, se você pegar a garotada de doze a quatorze anos, que não tem resultados expressivos a nível nacional, há uma bolsa de R$ 500 por mês. Isso impede o garoto ou a garota, que às vezes é de uma família carente, de parar de treinar porque o pai ou a mãe pediu que trabalhasse para ajudar no sustento da casa.
O Bolsa Atleta nosso [de Mato Grosso do Sul] é um dos melhores do Brasil. A meu ver, ele é melhor, inclusive, do que o Bolsa Atleta nacional.
O atleta consegue acumular duas bolsas?
Esta foi uma das mudanças que a gente fez. Nós fizemos o fórum, no qual discutimos essa questão, e uma das mudanças que a gente fez foi esta, porque quando o cara ganhava bolsa nacional ele já entrava para o alto rendimento e perdia o vínculo com o Estado por uma questão legal. Então, hoje ele pode acumular.
Nós temos vários atletas que são bolsistas também no nacional e ganham bolsa também aqui do Estado, desde que continue treinando e representando Mato Grosso do Sul, por uma federação daqui. Eu acho que essa bolsa é nosso principal programa.
Teria exemplo de atletas da base que estão se destacando?
Eu vou te dar um exemplo bacana. Visitei esta semana uma aldeia indígena em Amambai. Lá, temos um professor indígena formado em Educação Física em 2015, que foi para lá e entrou no nosso projeto.
Ele transformou a realidade da aldeia. Hoje, a garotada toda quer treinar atletismo, e lá temos quatro bolsistas do governo do Estado, inclusive campeão sul-americano de arremesso de dardo Sub-19. Um garoto de 17 anos, que é uma promessa, um fenômeno. Hoje, ele está viajando o mundo inteiro, disputando competições e é bolsista. Há uma perspectiva muito grande.
E qual a contribuição que o esporte pode dar para a sociedade no geral?
É lógico que aí se amplia um pouco mais, porque há os dramas sociais das pessoas. A minha experiência à frente da Fundesporte me deu uma visão muito legal da importância de uma política benfeita, de uma gestão com responsabilidade.
Eu vejo assim, apesar de a gente ter avançado muito no esporte, em praticamente todas as áreas, há muito ainda a ser feito.
E eu falo isso com muita tranquilidade, não só em relação ao esporte, porque o esporte tem interface com a saúde, com a educação, com a segurança pública, que são áreas correlatas.
Essa vivência minha de universidade, acadêmica, como atleta e como técnico, me permitiu fazer uma análise muito crítica de todas essas áreas que têm interface com o esporte. Esse fortalecimento no esporte de base é a mão forte do Estado. O que a gente precisa agora é fortalecer os clubes, o terceiro setor.





