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Em um mês, casos saltam de 236 para 2.670 e transformam Dourados em epicentro da covid-19 em MS

Por João Pedro Godoy, G1MS

O município de Dourados, a 229 quilômetros de Campo Grande, é o segundo mais populoso de Mato Grosso do Sul, com cerca de 220 mil habitantes. Mesmo com a população praticamente quatro vezes menor do que na capital, a cidade é a recordista de casos do novo coronavírus no estado. E o surto de casos de Covid-19 em um frigorífico, seguido de falta de medidas restritivas mais severas, ajudam a explicar como o município se transformou no epicentro de propagação da doença.

Até esta quarta-feira (1°), Dourados havia registrado 2.670 casos de Covid-19, com 26 óbitos – 179 casos e 15 mortes a mais do que na capital. A preocupação das autoridades também é com o aumento da ocupação de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no município, que chegou a 60% da capacidade, com 34% deles ocupados por pacientes confirmados ou suspeitos de coronavírus. A secretaria de saúde de Dourados afirma que está habilitando novos leitos para atender a demanda.

Com uma média de mais de 80 casos a cada 24 horas na última semana, a prefeitura diz que está discutindo novas ações com o núcleo técnico e o Comitê de Operações de Emergência para conter o avanço da doença. Já a SES afirma que continua a fazer recomendações, no fornecimento da testagem e de EPIs, além de ações de vigilância epidemiológica no monitoramento dos casos, que seria de responsabilidade exclusiva do município.

Os dois primeiros casos de Covid-19 em Dourados foram registrados no dia 28 de março. Na época, o estado tinha 31 casos da doença e nenhum óbito. De acordo com a secretaria de saúde do município, desde então foram elaborados decretos de restrições no comércio e de isolamento social, para conter o avanço do coronavírus na cidade.

Ainda em março, médicos, infectologistas órgãos públicos de Dourados e Ministério Público do Trabalho (MPT) se uniram para criar o Comitê de Gerenciamento Emergencial de Crises do município. Conforme Jeferson Pereira, procurador do Trabalho de Dourados e membro do Comitê, um planejamento de gestão de crise foi elaborado no início da pandemia e continuava a ser aprimorado com estudos técnicos conforme a doença progredia.

Pouco mais de dois meses depois, no dia 29 de maio, o município havia registrado 236 casos da doença, com um óbito, de um morador da cidade que faleceu no Tocantins. O “achatamento da curva” do coronavírus, porém, começava a desaparecer em Dourados, com a descoberta dos primeiros casos em um frigorífico com mais de 4 mil funcionários.

Vista da cidade de Dourados (MS) — Foto: Divulgação/Prefeitura de Dourados

Vista da cidade de Dourados (MS) — Foto: Divulgação/Prefeitura de Dourados

Os casos se espalharam pelo frigorífico, que chegou a testar mais de mil funcionários positivos para Covid-19, incluindo o primeiro de um indígena no estado, levando a doença às aldeias Bororó e Jaguapiru, também em Dourados. De acordo com Pereira, a indígena viajou para o sul do estado sem consentimento do frigorífico, trabalhando praticamente uma semana na empresa sem apresentar sintomas e potencialmente transmitindo o vírus. Até a tarde desta terça-feira (30), 145 indígenas das aldeias testaram positivo para coronavírus. Já na cidade, os registros aumentavam exponencialmente a cada dia, chegando a um aumento de 1.053% em apenas um mês, entre 29 de maio e 29 de junho.

“A grande onda na cidade começou com o frigorífico. Após a contenção desse surto na empresa, a transmissão comunitária, aquela que ocorre através das atividades habituais e de onde não tem o contato definido, se tornou amplamente disseminada tanto no usuário da saúde pública como privada. Isso, associado à uma flexibilização das normas de isolamento social, fez com que a cidade tivesse um aumento significativo de casos”, explica Mariana Croda, infectologista e membro do Comitê de Operações de Emergências (COE) da Secretaria de Estado de Saúde.

Aldeia indígena Bororó, em Dourados, onde primeiro caso de Covid-19 em indígenas foi registrado. — Foto: Reprodução/TV Morena

Aldeia indígena Bororó, em Dourados, onde primeiro caso de Covid-19 em indígenas foi registrado. — Foto: Reprodução/TV Morena

Os números crescentes fizeram a SES declarar o município como o epicentro da doença no estado. Não demorou para que a cidade ultrapassasse Campo Grande em casos de coronavírus. “Se olharmos outras situações que também tiveram frigoríficos, o cenário foi diferente. Em Dourados, permanecemos bem flexibilizados, permitindo que essa transmissão continuasse e ainda passasse para outros municípios da região. Com isso, perdemos o controle”, afirma Mariana.

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