Facção paulista fazia cadastro de novos integrantes por aplicativo e pressionava por recrutamento em presídios do RJ, aponta PF

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Por Henrique Coelho e Márcia Brasil, G1 Rio

A facção de tráfico de drogas paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) fazia cadastro de novos integrantes por aplicativo e pressionava por recrutamento em presídios do RJ, mostra investigação da Polícia Federal.

A PF fez uma operação na última terça-feira (25) para impedir o avanço do grupo criminoso no estado. Seis suspeitos foram presos.

Segundo as informações coletadas, o PCC usava integrantes presos em outros estados, como São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, para aliciar novos membros nos presídios cariocas.

Para que traficantes atuem como membros do PCC mesmo fora do Rio de Janeiro, as conversas em grupos de aplicativos de conversa são frequentes, como mostraram as investigações da PF. O estado é considerado estratégico para a organização criminosa.

Um dos procurados no RJ era Rafael Cobra, o Digato. Ele foi preso em Realengo, na Zona Oeste do Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo

Um dos procurados no RJ era Rafael Cobra, o Digato. Ele foi preso em Realengo, na Zona Oeste do Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo

A cobrança é grande para que novos integrantes sejam cadastrados, com dados detalhados, à organização criminosa, em conversas via conferência que reúnem integrantes de diversos estados, pertencentes à cúpula do grupo.

A união com o Terceiro Comando Puro (TCP), que já fez alianças com milicianos e domina várias favelas próximas ao complexo penitenciário de Gericinó, em Bangu, na Zona Oeste, permite que vários “batismos” do PCC aconteçam dentro de unidades prisionais dominadas por esta facção:

  • Bangu IV (Gericinó)
  • Esmeraldino Bandeira (Gericinó)
  • Benjamin de Moraes (Gericinó)
  • Edgard Costa (Niterói)
  • Em um grupo, chamado “Alteração RJ Fechamento”, há um cadastramento de novos membros no Rio de Janeiro, com informações como o apelido que o integrante se identifica na facção, um número de matrícula, a data e o local onde houve o “batismo”.

    É pedido também que o integrante explique quem são seus “padrinhos” no PCC, já que a referência de outros membros mais antigos é considerada importante dentro da facção. além das três últimas cadeias pelas quais o integrante passou.

    Veja algumas informações que estão no cadastro de novos membros do PCC:

    • Nome completo:
    • Vulgo de batismo:
    • Vulgo Atual:
    • Matrícula:
    • Data e local de batismo:
    • Quebrada de origem:
    • Quebrada atual:
    • Referência:
    • Padrinhos:

    Ameaças e conversas sobre ordens de membros da facção a respeito de possíveis mortes de agentes penitenciários foram mostradas no RJ1.

    Marcela das Chagas é integrante de facção criminosa paulista e foi presa em 2018 — Foto: Divulgação / Polícia Civil

    Marcela das Chagas é integrante de facção criminosa paulista e foi presa em 2018 — Foto: Divulgação / Polícia Civil

    Em 2018, Marcela das Chagas, considerada pela Polícia Civil como principal nome do PCC no Rio de Janeiro, foi presa em operação para combater o tráfico de drogas no complexo do São Carlos.

    Marcela era a pessoa de confiança do traficante Fábio Henrique de Farias, conhecido como Tinésio, líder do PCC no estado que foi preso em junho daquele ano. Tinésio se escondia no Complexo da Maré, na Zona Norte, e era o responsável por arregimentar integrantes para o PCC em liberdade no Rio de Janeiro. Com a prisão dele, Marcela passou a ser o principal elo da quadrilha paulista com a facção carioca.

    “Escuridão”

    Um dos principais nomes da “Sintonia” (como os grupos regionais do PCC são chamados) no Rio de Janeiro, é Paulo Henrique da Silva, que está preso no presídio Nelson Hungria, em Minas Gerais. O apelido dele é “Escuridão”. Segundo as investigações, foram registradas conversas que mostram ele envolvido no tráfico de drogas, com o auxílio de comparsas que estão em liberdade.

    “Escuridão” é muitas vezes citado como um preso violento e uma referência para candidatos a ingressar na “Sintonia” do PCC no Rio de Janeiro. Em um diálogo realizado no dia 12 de junho de 2019, um membro da facção conhecido como “Ferrari Black” pergunta a “Escuridão” sobre como estava a situação do grupo no Estado.

    F: “Tranquilo na luta é o Ferrari Black Salveiro dos Estados e País, tá bom irmão?… Deixa eu falar pra você, como é que tá nosso estado aí do Rio de Janeiro? Tá tranquilo irmão?”

    E: ” O irmão eu vou passar a visão ali que eu peguei entrei no ar aqui agora dei um salve nos parceiros tem uns 20, 40 minutos não tive retorno, mas nas idéias aqui eu não tive retorno então eu não tenho como te falar , não alteração que eu vi aqui pra mim não, mas deixa eu buscar lá pra mim mandar pra você, irmão.”

    Conexão RJ-PE

    PF faz operação para impedir que maior facção do país se estabeleça no Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo

    PF faz operação para impedir que maior facção do país se estabeleça no Rio — Foto: Reprodução/ TV Globo

    Como o PCC possui grande capilaridade no Brasil, frequentemente membros do grupo em outros estados são consultados e participam de decisões referentes ao Rio de Janeiro, segundo as investigações.

    Um deles é Lucas Daniel Dinelly da Silva, conhecido como “Barone”, investigado pela atuação da organização criminosa em Pernambuco. O próprio “Barone” não mora em Pernambuco, e sim em Belém, no Pará.

    Em conversa com um homem de apelido “Coreia”, que conta que está escondido na favela Vila Aliança, em Bangu, Barone pergunta se a comunidade é comandada pelo TCP. Em seguida, dá instruções: pergunta “o que está faltando” e incentiva “Coreia”:

    “Ensinar e pegar na mão deles mostrando a direção certa”.

    São citados, em conversas diferentes, favelas o complexo da Pedreira, em Costa Barros, na Zona Norte do Rio; a favela de Acari, também na Zona Norte; Dendê, na Ilha do Governador; Serrinha, em Madureira; e também o município de Angra dos Reis.

    Um membro, conhecido como Coreia, ao ser perguntado onde teria contatos para firmar alianças com facções cariocas, diz:

    “…Vou arrumar comprador dentro do Dendê, dentro do Acari, Serrinha, Vila Aliança, Angra Dos Reis….onde tiver vou arrumar comprador”

    O complexo da Pedreira, dominado pelo TCP, é citado em uma conversa na qual um integrante do grupo, conhecido como “Diadema”, conversa com uma mulher não identificada sobre a venda de 20 munições de fuzil AR-15 e um pente.

    “…. Aí ele tá assim, o negócio tá onde? Eu falei, ó, está lá no Complexo da Pedreira, nos amigos lá. Aí ele falou, você não quer passar para mim não? O que dá para nós fazer? ”, diz ele.

    Estado de origem

    Há membros da facção criminosa que atuam no Rio mas estão presos ou moram em São Paulo, estado de origem do grupo.

    Um deles é Joaquim Bernardo dos Santos Neto, conhecido como “Joka”. Ele atua como auxiliar de outra investigada, Tatiana do Carmo Machado, a Libriana, no cadastro dos novos membros da facção. Mesmo preso na Penitenciária ASP Lindolfo Terçariol Filho, em Mirandópolis, São Paulo, é membro do grupo no Rio de Janeiro.

    Em conversa com Luciano Iatauro, conhecido como “Da Leste” e apontado pela Policia Federal como líder do grupo no Rio, “Joka” é perguntado se pode ajudar no cadastro de um membro, conhecido como “Abadia”, então preso em Bangu 4.

    ““… Preciso que você faz uma caminhada ai, mano. Pegar uns OK ali do cadastro, do cadastreiro dos estados e países, mano. E do apoio do resumo e do resumo também do cadastro. Entendeu, mano? Pra gente tá fazendo o cadastramento do nosso irmão Abadia geral do Estado, falou mano? A gente não consegue pegar ele na linha, passa pros irmão. Que é só no aplicativo lá. Então a gente já ta passando pegando os OK das hierarquias ai acima da gente aí. Pra meter marcha na condução lá do irmão, que a gente tá precisando do irmão urgente aí na Geral do estado. Entendeu mano? Lá em Bangú 4….”

    Em conversa com Julio de Almeida Silva, o “Gordão”, que também mora em São Paulo, “Joka” pede, no dia 23 de setembro de 2019, indicações de confiança para atuarem como “olheiro” e “vapor” nas “lojas” (como são chamadas as bocas de fumo) da facção.

    “G: Um é pra trabalhar de vapor e outro de olheiro, né?

    Joka: Vão trabalhar junto os dois, irmão. As vezes é quase um pai de família, topa tudo, quase parceiro. C*&@lho, irmão. O cara vai fazer o que eu preciso, entendeu? Os moleque é pra bater mesmo. Trabalha no dia a dia comigo.”

    Em outras ligações, “Joka” discute com outro membro, conhecido como Espanhol, sobre um assalto que uma parente de integrante da facção, “Lorenzo”, sofreu ao chegar em casa. O assalto terminou com o carro e o dinheiro de Lorenzo roubados.

    Após alguns dias, uma nova ligação, entre “Joka” e “Libriana”, revela que um dos autores do assalto já estaria “nas mãos” dos integrantes do grupo criminoso.

    “Passei tudo certinho pro irmão lá, deixei a ciência lá resumida, em cima do Pedro lá do pessoal do nosso irmão, que inclusive um do moleques já tá na mão, creio eu que o irmão vai querer encostar lá, qualquer coisa vou lá dá um apoio”


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